de novo retorno ao tema que já havia abordado (pretencioso?)ali
em recente artigo para o valor Demian Fiocca tenta refutar uma tese, cujos defensores ele não nomeia, mas que me remete ao texto de Alexandre Schwartsman (em link mais acima) no mesmo jornal uma semana antes, sobre o efeito do crédito direcionado na -exorbitante- taxa de juro real de equilíbrio no país. eu não vou me meter a discutir teoria econômica, mas a partir dos dados apresentados pelo próprio ex-presidente do bndes, é possível perceber que os mesmos não são suficientes para endossar sua negação. ele mostra o seguinte:
"Em qualquer parte do mundo, juros reais de mais de 5% deveriam conter o mercado de crédito. Mas, no Brasil, entre 2004 e 2008, por exemplo, os juros reais foram de 9,1% em média e o crédito livre cresceu 25,6% ao ano!
Ou seja, a peculiaridade do Brasil é a baixa eficiência dos próprios juros de curto prazo: muitos, para pouca contenção do mercado privado de crédito.
E note-se que, contrariamente ao que alguns disseram, o crédito direcionado (BNDES, agrícola e habitacional) cresceu menos. Aumentou 17,1% ao ano no mesmo período. Ou seja, foi o crédito livre que os juros reais muito altos não conseguiram conter. A demanda agregada teria crescido ainda mais, exigindo juros ainda mais altos, se o crédito direcionado reagisse como o crédito livre."
bem, eu não notei na coluna do Schwartsman referência alguma sobre um hipotético maior crescimento do crédito direcionado durante os anos relatados pelo Fiocca, de qualquer forma não é ele, Alex, o originador da tese. independente disso, como o gráfico abaixo deixa claro, a trajetória dos juros reais no período mencionado foi inequívocamente de queda (!), ainda que mantidos em altos patamares.
ontem (27/07) o bacen divulgou a nota sobre a política monetária e as operações de crédito do sfn na qual consta, entre muitas outras informações, o seguinte:
"II - Operações de crédito do sistema financeiro:
...
Nesse contexto, o volume total dos empréstimos bancários, computados recursos livres e direcionados, alcançou R$1.834 bilhões em junho, ao crescer 1,6% no mês, 7,5% no semestre e 20% em doze meses. Em decorrência, a relação crédito/PIB elevou-se para 47,2%, ante 46,9% em maio último e 44,6% em junho do ano anterior. A representatividade dos bancos públicos cresceu 0,2 p.p. no mês, equivalendo a 41,9% do total de crédito do sistema financeiro, enquanto as parcelas referentes às instituições privadas nacionais e estrangeiras recuaram 0,1 p.p., para 40,9% e 17,2%, respectivamente.
Os financiamentos com recursos livres, que corresponderam a 30,8% do PIB, ante 29,6% em junho de 2010, totalizaram R$1.198 bilhões, com aumentos de 1,6% no mês, 7,3% no ano e 17,9% em relação a junho de 2010. O saldo das operações contratadas com pessoas jurídicas registrou expansão de 1,8%,atingindo R$596,4 bilhões, resultante da elevação de 2,2% nas operações contratadas com recursos domésticos, com participação relevante das modalidades capital de giro e conta garantida, e da retração de 2,2% nos financiamentos lastreados em moeda estrangeira. Os empréstimos destinados a pessoas físicas somaram R$601,4 bilhões, com incrementos de 1,3% no mês, 7,4% no semestre e 18,9% em doze meses.
O crédito com recursos direcionados representou 16,4% do PIB, comparativamente a 15% em junho do ano anterior, correspondendo a R$636,2 bilhões, após crescimentos de 1,5% no mês, 7,9% no ano e 24,1% em doze meses."
as taxas de crescimento dos seguimentos de créditos livre e direcionado expostas pelo bacen revelam que, exceto pelo último mês, o avanço da segunda modalidade é superior tanto no ano como nos últimos doze meses, prazo coincidente com o aumento do juro ex-ante (não contemplado pelo gráfico acima mas podendo ser constatado pelo focus, a selic e a curva de juros). isto por si não é suficiente para corroborar a teoria sobre o impacto do crédito direcionado e, ainda que eu lhe seja simpático, esta, assim como a maioria das idéias relacionadas as causas de nossa exótica taxa de equilíbrio, carece de estudos mais aprofundados para ser validada. no entanto, percebe-se, pela ligeira reação de economistas ligados ao bndes, a maior exposição da tese nas últimas semanas tem incomodado.
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